Cinemão Moçambicano
Uma promessa de cineasta, uma câmera, um tripé, um microfone sem conversor de energia. Era 31 de dezembro e todos os escritores da associação dos escritores estavam só aguardando as entrevistas, as vezes a ajuda vem de onde menos esperamos. Os escritores moçambicanos aguardavam, mas o microfone jamais funcionaria sem um conversor de energia, naquela altura, eu que só tinha sido estagiária e jamais tinha trabalhado fora do país não sabia do que se tratava um conversor nem como iria montá-lo. Deus tem tudo sob controle, apareceu um dos escritores de carro e vendo o que eu passava, disse que iria resolver, lá fui eu com meus dezoito anos vendo aquela paisagem de barracas e pequenas lojinhas, as vendedoras de frutas, as crianças saindo da escola ao meio dia. Paramos numa lojinha repleta de cabos e tomadas e em pouco tempo o escritor saía com o tal conversor. Era um troço pesado com uma tomada, eu o agradeci tanto! Esse simples gesto me toca até hoje, eu sabia o nome dele até bem pouco tempo, mesmo agora escrevendo essa memória, quase o chamo por dentro da noite. Esse senhor salvou meus dias de trabalho e se não fosse ele provavelmente não seria possível. Retornamos à associação e no final sentamos todos numa grande mesa em pleno réveillon. Eu fui para a casa encontrar meu padrasto, sua esposa moçambicana e sua enteada, sua nova família e minha família africana.
As belas lembranças da África!
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