Saudades da Xavier Botelho

Meu padrasto nunca comia um sanduíche inteiro, uma pizza inteira, na verdade não posso afirmar isso, mas lembro que ele sempre tinha alguma comida para os mutilados da guerra e para os mais pobres, eles até já o conheciam e sabiam que ele iria oferecer algum alimento. Nessa época eu também tinha esse hábito, e um dia junto a um amigo que Deus colocou no meu caminho, um ano depois desde a última vez que eu morava na Xavier Botelho, eu levei para o guarda, o porteiro do prédio, um sanduíche. Não sei expressar a surpresa que ele teve ao me ver e a gentileza com que agradeceu pelo sanduíche, nunca me esqueço, daquela rua esburacada e escura, prédios obscurecidos trancados por grade, ali fui muito feliz e foram muitos pores de sol radiantes. Ali escrevi muito no meu diário e li muitos livros, embalada pela voz doce e maternal de Cesária Évora. Ali foi quando pela primeira vez muito forte eu senti a presença de Deus.

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