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Mostrando postagens de setembro, 2019

Breve Sexta-Feira

Qualquer vício é uma coisa ruim, não se pode dizer que um vício seja uma coisa boa, qualquer vício é ruim, até o vício em coisa alguma. Coisa alguma te vicia, você não bebe mais, não fuma mais, não faz mais sexo, não quer mais ir a igreja, nem a irmandade que faz parte, você vê novela, mas se perder tanto faz, você não curte mais praia, o hábito de ler que cultivou praticamente desde que nasceu também não te fascina mais, você escreve sem encanto, você acorda sem vontade...e assim o dia vai passando, sem beber, sem fumar e sem fazer sexo você tem cada vez menos amigos, você vai descobrindo que nunca foram amigos, vai se sentindo só, essa é a vida de quem não tem vícios, será que todo mundo é assim? Não dá pra saber...sexta a feira a noite a vida não te sorri. Não existe amor em SP, nesse labirinto místico de almas tão vazias. Isso é só o monólogo mental de quem parou de fumar a três dias e já não bebe há meses, parece que não há vida para essa pessoa numa sexta feira a noite. E de fato...

O Amor

Uma coisa que sempre me pergunto, como após anos o amor continua  a queimar , que brasa é essa ? de que fogueira ?  Então, se você amar mesmo, pelo menos uma única vez, você pode ter certeza que essa chama irá queimar no seu peito pela eternidade e mais você vai amar outras coisas e sempre achará que é a mesma coisa,  porque aquele amor contido , escondido , salta pra fora e  se reflete  em tudo.  Foi assim comigo, amei tanto Moçambique, sua gente,  sua geografia  e esse homem que me arrebatou , esse amor que nunca esqueci, coisas  da idade, dezoito anos tempo de amar pra valer, tempo de começar  a ter problemas também. E foi assim, suavemente fui aprendendo sobre  o amor , hoje amo viajar, amo a França, mas nada se compararia  a aterrissar em Moçambique. Não sei mais o que vou encontrar,  já se passaram dez anos, lá se foi minha primeira juventude,  mas procuro vive...

Dona Balbina, só gratidão

As roupas que serviram na dona Balbina eram da minha avó, dona Balbina passava o dia no tanque, nessa época não tínhamos máquina de lavar lá na Xavier Botelho, ela lavava, lavava e lavava, tinha o mesmo corpo que minha avó que já tinha enchido uma mala só de roupas para doação. Dona Balbina era uma senhora dessas que não se esquece, impossível lembrar suas feições depois de todos esses anos e todos os rostos que passaram pela minha vida. O tempo é assim, ele vai guardando e apagando as lembranças, não existe nada que não seja sacrificado por ele, se não fosse por repetir em nosso cotidiano nossos nomes, nossos dados, nossas senhas bancárias, até isso esqueceríamos e se não houvessem espelhos?

Saudades da Xavier Botelho

Meu padrasto nunca comia um sanduíche inteiro, uma pizza inteira, na verdade não posso afirmar isso, mas lembro que ele sempre tinha alguma comida para os mutilados da guerra e para os mais pobres, eles até já o conheciam e sabiam que ele iria oferecer algum alimento. Nessa época eu também tinha esse hábito, e um dia junto a um amigo que Deus colocou no meu caminho, um ano depois desde a última vez que eu morava na Xavier Botelho, eu levei para o guarda, o porteiro do prédio, um sanduíche. Não sei expressar a surpresa que ele teve ao me ver e a gentileza com que agradeceu pelo sanduíche, nunca me esqueço, daquela rua esburacada e escura, prédios obscurecidos trancados por grade, ali fui muito feliz e foram muitos pores de sol radiantes. Ali escrevi muito no meu diário e li muitos livros, embalada pela voz doce e maternal de Cesária Évora. Ali foi quando pela primeira vez muito forte eu senti a presença de Deus.

Cinemão Moçambicano

Uma promessa de cineasta, uma câmera, um tripé, um microfone sem conversor de energia. Era 31 de dezembro e todos os escritores da associação dos escritores estavam só aguardando as entrevistas, as vezes a ajuda vem de onde menos esperamos. Os escritores moçambicanos  aguardavam, mas o microfone jamais funcionaria sem um conversor de energia, naquela altura, eu que só tinha sido estagiária e jamais tinha trabalhado fora do país não sabia do que se tratava um conversor nem como iria montá-lo. Deus tem tudo sob controle, apareceu um dos escritores de carro e vendo o que eu passava, disse que iria resolver, lá fui eu com meus dezoito anos vendo aquela paisagem de barracas e pequenas lojinhas, as vendedoras de frutas, as crianças saindo da escola ao meio dia. Paramos numa lojinha repleta de cabos e tomadas e em pouco tempo o escritor saía com o tal conversor. Era um troço pesado com uma tomada, eu o agradeci tanto! Esse simples gesto me toca até hoje, eu sabia o nome dele até bem pouc...

Lembranças Amareladas

Saudade é quando o tempo passa e não nos damos conta e de repente, num belo dia surge um diário de dentro do armário embutido ou uma foto preto e branca amarelada onde vemos esmaecida a imagem desgastada pelo tempo . Saudade é um colar de conchas que guarda juras de amor eterno, foi mesmo naquela noite, aqueles olhos verdes que me desposaram sem nem mesmo a necessidade de um anel, foi naquele mar revolto que entramos, eu segurando firme na mão dele, o carro parado nas dunas de portas abertas.  Éramos jovens, muito jovens e pensávamos que sabíamos de tudo.  Um ritual na fogueira, adorando os deuses do fogo. Ele preparando o frango com batatas no dia seguinte, eu já com o colar de conchas no pescoço. Foi preciso muito força para deixá-lo num dia cinza e triste em que o deixando, deixei a África que eu tanto amo. Atravessei o oceano com as promessas de amor eterno, mas o destino é muito traiçoeiro e nos prega peças e oito meses depois ele dizia ao telefone que estava tud...